Texto: Jornalista José Caldas da Costa (Tribuna NorteLeste)
A redução constante e gradual do número de homicídios no Espírito Santo nos últimos anos, naturalmente, é visto de forma “muito positiva” por especialistas em segurança pública. Entretanto, o Estado ainda tem a maior taxa por 100 mil do Sul/Sudeste e, pela frente, o desafio de manter políticas públicas que sustentem essa redução, assim como de outros tipos de crimes que integram o ambiente de segurança pública.
O mês de julho fechou com o menor número de homicídios da série histórica e, a se manter o ritmo dos últimos meses, projetando, pela primeira vez, o fechamento do ano abaixo dos 700 homicídios e taxa abaixo de 17 homicídios/ano por grupos de 100 mil pesssoas. É uma luta contínua do Estado, que já chegou a 58 homicídios por 100 mil habitantes/ano.

No ano passado, essa taxa ficou na faixa dos 19,3 homicídios/ano no Espírito Santo. Uma faixa de transição. De acordo com o Atlas da Violência 2026, o Espírito Santo fechou com a segunda maior taxa por 100 mil das regiões Sul/Sudeste, deixando o Rio de Janeiro para trás: São Paulo (6,6), Santa Catarina (8,1), Minas Gerais (12,8), Rio Grande do Sul (15,2), Espírito Santo (19,3) e Rio de Janeiro (20,4).
As maiores taixas do Brasil estão com Amapá (45,7), Bahia (40,9), Pernambuco (37,3), Alagoas (35,9) e Ceará (34,3).

“Os dados mostram uma redução nos registros de homicídios e feminicídios no Estado em relação ao mesmo período do ano passado. Seguimos acompanhando esses indicadores e mantendo ações voltadas ao enfrentamento da violência e ao fortalecimento da segurança pública”, afirmou o governador Ricardo Ferraço.
De acordo com o seccretário de Estado de Segurança Pública, Leonardo Damasceno, “os indicadores são monitorados continuamente para orientar o planejamento das ações de segurança pública. O acompanhamento dos dados permite direcionar recursos e operações de acordo com a realidade de cada região do Estado”.
PROGRAMA ADQUIRE MATURIDADE
Um dos arquitetos do Programa Estado Presente em Defesa da Vida, implantado em 2011, interrompido em 2015 e retomado em 2019, o secretário de Estado de Economia, Planejamento e Orçamento, delegado federal aposentado, Álvaro Duboc, que coordena o programa, os resultados colhidos ano a ano são fruto da liderança do governador (primeiro, Renato Casagrande e, agora, Ricardo Ferraço), mas também da maturidade que o programa alcançou.
“Julho foi o melhor resultado de toda a série histórica desde 1996. A Região Metropolitana com 12 homicídios no mês era impensável lá no começo do programa, onde somente a Serra tinha mais de 30 em um mês. Chegarmos a 12, considerando que a região concentra a metade da popuação capixaba, isso é fantástico. O programa alcançou maturidade”, disse Duboc.
O coordenador do Estado Presente salienta a integração e cooperação entre as instituições, “coisa que dificiolmente se vê em ojutros Estados, com as Polícias Civil e Militar sentando juntas para discutir o problema de seu território e sua região e buscar ações integradas”.

Duboc enfatizou, como registrado pelo secretário Damasceno, o monitoramente permanente, com o acompanhamento das informações trazidas pelos dados, “para que possamos corrigir rotas sempre que necessário”, e os investimentos que estão sendo feitos em tecnologia.
“Nesse período, estamos transformando segurança pública de analógica, como recebemos em 2019, e hoje muitos processos de policiamento e investigação são digitais, como os cercos eletrônicos, tottens de segurança, agora o projeto Sentinela, os CIATS para investigar organizações criminosas e recuperação de ativos. É um conjunto de investimentos em tecnologia que trazem o resultado que estamos alcançando”, salientou.
O Projeto Sentinela ES é uma iniciativa do Governo do Estado do Espírito Santo lançada em 1º de julho de 2026 para integrar sistemas públicos e privados de videomonitoramento à rede estadual de segurança pública. O programa foca em integração voluntária, inteligência artificial e respostas rápidas. “O mais importante de todo esse processo é o rconhecimento da sociedade de que segurança pública, quando tem método e objetivo, conseguimos os resultados”, acrescentou Duboc.]
Para que programas bem sucedidos como o Estado Presente não sobram interrupções é necessário que se tornem programas de Estado e não de Governos, na avaliação do deputado estadual Mazinho dos Anjos (MDB), membro da Comissão de Segurança da Assembleia Legislativa.
Pensando nisso, o parlamentar protocolou, há um ano na Casa, o Projeto de Lei 459/2025, que prevê exatamente essa medida com o Estado Presente. “Que seja um programa de Estado, portanto, tendo continuidade, e não de Governo, sujeito aos humores de quem entra”, disse o deputado.
O projeto tramita pelas comissões temáticas e, pelo ritmo, poderá ser aprovado até dezembro para que o próximo Governo não o interrompa, independente de quem vencer as eleições de outubro.
CAMINHO A PERCORRER
Os avanços da segurança pública do Espírito Santo são reconhecidos e elogiados por uma das maiores autoridades do País, o ex-secretário nacional de Segurança Pública, coronel da reserva da PM paulista José Vicente da Silva Filho. Porém, com uma ressalva:
“A cidade de São Paulo tem 12 milhões de habitantes, três vezes o Estado do Espírito Santo. São Paulo calcula fechar o ano com 550 homicídios, bem menos que os 700 do Espírito Santo, que tem um longo caminho a trilhar”.
Caminho, entretanto, que está na direção certa, na avaliação de José Vicente: “Realmente resultados bastantes positivos. Não é fácil fazer essa reversão dos dados elevados que o Espírito Santo tinha, é uma evolução bastante positiva. O que se espera é verificar todos os pontos que ajudaram na queda desses resultados de redução de mortes intencionais e verificar onde pode ser aperfeiçoado. Obviamente, quem está mais perto da situação pode verificar melhor. mas é importante verificar que o homicídio não é um fato que se trabalha isoladamente. Ele está conectado a uma série de ações violentas que estão pelo Estado”.

Mestre em Psicologia Social pela Ufes e membros do Fórum Nacional de Segurança Pública, o coronel José Vicente cita alguns casos que requerem atenção na política capixaba da área, de acordo com dados do Anuário de Segurança Pública de 2025:
“O Espírito Santo teve a 16ª colocação em roubos de veículos; todo roubo é um crime violento: 70% das letalidades da polícia, por exemplo, acontecem nos pontos de concentração de roubos. O Estado é o 5º no roubo de celular. Não é tão grave como o roubo de veículo, mas é uma ação ameaçadora. Em roubo a transeunte o Espírito Santo está em 10º lugar dentre estados brasileiros. Deve ser preocupante diante de 27 unidades federativas. Roubo a comércio é o 16º. Estes são pontos de atenção”.
Para o especialista, “é importante verificar onde estão acontecendo os crimes violentos e fazer um trabalho importantíssimo que a Polícia Civil não costuma fazer normalemtne, que é dar competência aos distritos policiais ou às cidades mais violentas para que essas delegacias verifiquem quais são os criminosos mais atuantes, em termos de maior incidência de suas ações, grupos cirminosos agindo e fazer o combate específicio, não deixar apenas para a Polícia Militar com seu patrulhamento ostensivo”.
Para José Vicente, a segurança pública é uma área muito sensível, com cada pequena área tendo um planjemaneto connjunto, um diagnóstico semanal por parte das estruturas das Polícias Civil e Militar, checando tudo o que deu certo ou não, e fazendo a reorientação do pessoal.
“A cada 15 dias, o próprio governador, como fazia o Casagrande, precisa checar as áreas mais complicadas comparando com as de melhores resultados e fazer esse acompanhamento. É fundamental na gestão da segurança pública. Isso tem que ser melhorado, aperfeiçoado, não há outro caminho a não ser esse. Não adianta operações mirabolantes e parece que o Espírito Santo não vem fazendo mais essa parte espalhafatosa. É preciso gestão e trabalho conjunto das duas polícias. Aqueles que não estiverem se dando bem é necessário que sejam redcolhidos. É a cooperação no limite das possibilidades”, aconslhou.
Voltando a comparar com São Paulo, Vicente fala do longo caminho a trilhar.
“Uma cidade como São Paulo é complicada, tem menos efetivo que o Estado do Espírito Santo. Então, se é possível fazer em São Paulo, tem que ser mais possível ainda fazer no Espírito Santo. Essa meta de São Paulo de cinco mortes por 100 mil é factível e deve ser um objetivo obsessivo por parte das polícias e autoridades capixabas. Taxa de um dídigto deve ser a meta do próximo governo, para ficar em índices de localidades minimamente decentes”, acentuou.
Para isso, “cada localidade precisa de diagnóstico específico para prescrever os remédios específicos. Há lugares para incremento de investigação quando há evidências de crime organizado ou matadores agindo. Em outros pode ser o caso de desordem social (ajuntamentos de moradias precárias por exemplo) que pode requerer ações conjuntas com prefeituras para melhorar a qualidade urbana e ações sociais. É um trabalho a muitas mãos”.
BOAS POLÍTICAS PÚBLICAS
Para o cientista político capixaba João Gualberto Vasconcelos, professor emérito da Ufes e pesquisador em plena atividade, o Espírito Santo é um exemplo de uma forma geral dos bons resultados de boas políticas públicas.
“Um Estado que se institutiu nesse século XXI, nesses últimos governos, com a capaicdade de gerar boas políticas públicas. Para os mais pobres, sobretudo, uma cidade e uma região boa de se viver é pelas boas políticas públicas que implementa. Viver de frente praa o mar, passear nas montanhas nos finais de semana, ter bons restaurantes, isso é para a classe média alta. Para a imensa maioria das pessoas, morar num bom Estado é morar num EStado que tenhas as polpiticas minimas – escola perto de casa, hospitais com medicamentos e a segurança, que passa a ser um item prioritário no Brasil”, comentou Gualberto.

Sobre as políticas de segurança, Gualberto é bem incisivo: “Nossos presídios não estaão invadiddos pelo crime organizado, como o Rio de Janeiro por eemplo. Temos uma PM bem equipada, bem remunerda relativamente aos outros Estdos braasileiros. Enfim, o Espírito Santo conseguiu oferecerr à população uma política de segurança muito adequada”.
E arrematou:
“A redução do número de homicídios não é consequência só de uma ação, a polícia armada, a cadeia para neutralizar as pessoas, mas um conjunto de coisas que faz uma política de segurança funcionar. Essa redução de homicídios é consequência clara e imediata de política pública eficiente”.
AÇÃO COMUNITÁRIA
Outro cientista social, Erly Euzébio dos Anjos, igualmente professor emérito da Ufes e formação acadêmica em universidades estadunidenses, também elogia os resultados obtidos sobre a redução da criminalidade no Estado, “que acompanham o que vem sendo reportado no país e em especial no Sul e Sudeste”.
Para Erly, tudo isso se deve a persistentes investimentos na segurança pública, no que o Espírito Santo tem sobressaido:
“A questão da segurança é concebida como multidimensional, o que requer um planejamento micro e macro, a curto, médio e a longo prazos. O monitoramento contínuo das ações integradas das polícias e do sistema judiciário no ataque as organizações criminosas refletem nestes resultados positivos”, disse Erly dos Anjos.

Segundo o sociólogo, entretanto, “há muito ainda a ser feito com relação aos crimes de feminicídios e ao uso indiscriminado dos golpes com as novas tecnologias, mas vivemos um novo tempo de combate à violência como tal. Com relação aos ajustes e avanços, particularmente, gostaria de que houvesse mais investimentos no que se concebem com uma autêntica polícia comunitária. A política de prevenção e o enfrentamento das milícias e facções seriam mais sustentáveis com a aliança da polícia com lideranças locais”.
Ao passo que vai controlando e reduzindo os homicídios, o Espírito Santo enfrenta outros desafios. O Observatório da Seguirança Pública mostra que um deles é o aumento do número de crimes de fraudes e estelionatos, que representam 69,15% dos crimes cometidos no Estado nos sete primeiros meses de 2026, quase dez vezes mais a segunda maior ocorrência, que é roubo a pessoa em via pública. No ano passado, as fraudes representaram 66,85% dos crimes registrados.
Outro desafio está no trânsito. Em 2025, foram 1.012 mortes, um número 27% maior do que as mortes por homicídios. Em 2026, já foram 588 em 212 dias, projetando o ano com o mesmo número absoluto do ano anterior. Porém, com a queda de homicídios, esse número ficará mais de 40% acima das vítimas de homicídios.
(José Caldas da Costa, especial para a Redação da tribunanorteleste.com.br)
Publicado em 05/08/2026











