Da rotina da advocacia no interior do Espírito Santo para uma das principais cortes do sistema judicial britânico. É nesse cenário que o advogado Rodrigo Rodrigues, de Baixo Guandu, acompanhou presencialmente, em Londres, mais uma etapa do processo relacionado ao rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG), em 2015.
Rodrigues esteve na Inglaterra durante os dois dias de audiência realizados nesta segunda (5) e terça-feira (6), em uma disputa que pode definir quem terá a responsabilidade pela representação dos atingidos na continuidade do processo movido contra a mineradora BHP.
A audiência terminou sem uma decisão imediata. Até esta quarta-feira (7), o pronunciamento judicial ainda não havia sido divulgado. A expectativa é de que o juiz responsável apresente sua decisão entre sexta-feira (9) e segunda-feira (12).
Um advogado do interior diante de um processo internacional
A presença de Rodrigo Rodrigues em Londres chama atenção também pela trajetória profissional que o levou até ali.
Advogado com mais de dez anos de atuação, Rodrigues construiu sua carreira em Baixo Guandu, no noroeste do Espírito Santo, onde mantém sua atividade profissional. É de uma cidade do interior capixaba que acompanha agora, presencialmente, os desdobramentos de um dos processos de maior repercussão internacional relacionados a um desastre ocorrido no Brasil.
A experiência coloca lado a lado duas realidades distintas da profissão: a advocacia cotidiana desenvolvida longe dos grandes centros jurídicos e o ambiente de uma corte inglesa onde são discutidas questões que envolvem centenas de milhares de atingidos, grandes escritórios internacionais e valores bilionários.
A presença em Londres, nesse contexto, representa também um capítulo particular da trajetória de um profissional que construiu sua carreira fora dos tradicionais centros jurídicos brasileiros.

O que esteve em discussão na audiência
Os dois dias de audiência não tiveram como objeto principal a definição das indenizações que poderão ser pagas aos atingidos. O centro da discussão foi a representação dos autores da ação.
O Comitê de Clientes do processo decidiu substituir o escritório Pogust Goodhead pelo Bailey Glasser International (BGI), com apoio do escritório Hausfeld, para a continuidade da representação.
O Pogust Goodhead contestou a decisão e levou a questão à Justiça inglesa. Durante a audiência, o escritório sustentou que o Comitê de Clientes não teria poderes contratuais para encerrar sua representação.
Do outro lado, a defesa relacionada ao Comitê sustentou a legitimidade da decisão e afirmou que a mudança foi aprovada pelos representantes dos clientes.
A disputa envolve, entre outros pontos, os contratos firmados com os escritórios, a autoridade do Comitê de Clientes e as consequências jurídicas e financeiras de uma eventual substituição da representação.
Uma decisão aguardada
Com o encerramento da audiência na terça-feira, a expectativa agora está voltada para a decisão do juiz. O pronunciamento será relevante para a continuidade do processo inglês, especialmente porque a disputa sobre a representação ocorre antes de uma nova etapa destinada à análise dos danos e à quantificação das indenizações.
A Justiça inglesa já reconheceu a responsabilidade da BHP pelo desastre. Em maio deste ano, a Court of Appeal também rejeitou o pedido da mineradora para obter autorização para recorrer dessa conclusão.
A próxima fase do processo deverá avançar para a discussão dos danos e das indenizações individuais e coletivas.
Um caso que ultrapassou as fronteiras brasileiras
O rompimento da barragem de Fundão, ocorrido em novembro de 2015, provocou uma das maiores tragédias ambientais da história do Brasil e atingiu comunidades ao longo da bacia do Rio Doce.
Além das medidas e processos conduzidos no Brasil, o caso passou a ser discutido também na Justiça inglesa, transformando-se em um litígio de dimensão internacional.
A ação reúne um número expressivo de reivindicações e envolve comunidades, municípios, empresas e pessoas afetadas pelo desastre.
A disputa atualmente analisada pela High Court, entretanto, não representa uma nova análise sobre a ocorrência do desastre. O ponto central desta audiência foi a definição de quem deverá conduzir juridicamente a representação dos autores na próxima etapa do processo.
De Baixo Guandu para Londres
Para Rodrigo Rodrigues, a passagem por Londres ocorre em meio a uma trajetória profissional construída no interior capixaba. Sua atuação ao longo de mais de uma década tem como ponto de partida e referência Baixo Guandu.
Agora, a milhares de quilômetros do Espírito Santo, Rodrigo acompanha mais uma vez de perto uma discussão jurídica que envolve a Justiça britânica e um dos maiores litígios coletivos relacionados a uma tragédia ocorrida no Brasil.
A imagem de um advogado formado profissionalmente no interior acompanhando uma audiência dessa dimensão também simboliza uma realidade cada vez mais presente na profissão: a atuação jurídica deixou de estar limitada às fronteiras geográficas onde o escritório está instalado.
No caso de Rodrigo, a distância entre Baixo Guandu e Londres não representa um afastamento de suas raízes profissionais, mas o alcance que sua trajetória na advocacia passou a ter.
Após dois dias de debates, resta agora aguardar a decisão da Justiça inglesa. O próximo capítulo do caso Mariana deverá começar a ser definido nos próximos dias.
Publicado em 07/10/2026










