O temor de um “super El Niño” capaz de comprometer a safra brasileira de 2026/27 ganhou espaço em manchetes, redes sociais e análises de mercado. Para o professor Luiz Carlos Molion, porém, ainda não existem elementos suficientes para transformar esse cenário em certeza — muito menos para justificar decisões precipitadas dentro das fazendas.
A avaliação foi apresentada no episódio 126 do podcast Agro em Debate, durante conversa com Leandro Marmo, CEO da João Domingos Advogados e apresentador do programa. Ao longo da entrevista, Molion questionou o que classifica como alarmismo em torno do clima e defendeu que a análise de um possível El Niño precisa ir além do aquecimento das águas superficiais do Oceano Pacífico.
Com formação em Física pela Universidade de São Paulo (USP), doutorado em Meteorologia pela Universidade de Wisconsin, nos Estados Unidos, e passagem pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), onde atuou como pesquisador e diretor da área de Ciências Espaciais e Atmosféricas, Molion construiu uma longa trajetória acadêmica ligada à climatologia e à variabilidade climática.
No podcast, o professor levou a discussão diretamente para a realidade do agronegócio. Afinal, previsões de chuva, estiagem ou excesso de umidade interferem na escolha de culturas, na compra de insumos, no escalonamento do plantio, na contratação de crédito e seguro e até na definição de estratégias para a segunda safra.
Água quente, sozinha, não confirma El Niño
Um dos principais argumentos apresentados por Molion é que o aquecimento de uma faixa do Pacífico não basta, isoladamente, para caracterizar um El Niño com capacidade de alterar o regime de chuvas em diferentes regiões do planeta. O fenômeno faz parte do sistema conhecido como El Niño–Oscilação Sul (Enos) e depende da interação entre o oceano e a atmosfera. Além das anomalias de temperatura da superfície do mar, os meteorologistas observam mudanças nos ventos, na pressão atmosférica e na circulação tropical.
Segundo Molion, a atmosfera pode levar meses para responder ao aquecimento das águas. Por isso, uma anomalia oceânica observada com grande antecedência não deveria ser convertida automaticamente em previsão de um evento forte e de impactos definidos sobre o Brasil.
A necessidade desse acoplamento é reconhecida pelos centros internacionais de monitoramento. Também há uma dificuldade conhecida na previsão do Enos quando os prognósticos são feitos com muitos meses de antecedência, período em que os modelos apresentam maior dispersão entre os possíveis cenários.
Para o professor, o produtor deve acompanhar a evolução dos sinais até o fim de setembro ou o início de outubro, quando haveria uma base mais consistente para avaliar o comportamento da atmosfera e seus possíveis reflexos sobre a safra 2026/27.
Molion relaciona aquecimento do Pacífico a terremoto no Japão
Durante a entrevista, Molion apresentou uma interpretação própria para o rápido aquecimento observado no Pacífico. Ele relacionou o movimento a um terremoto de magnitude 7,5 ocorrido no Japão, a baixa profundidade, que teria transferido grande quantidade de energia para o oceano.
De acordo com a explicação apresentada pelo professor, essa energia teria atravessado o Pacífico em aproximadamente 40 dias. Ao alcançar a costa da América do Sul, teria favorecido o afloramento e a dispersão de águas mais quentes, formando uma pluma térmica posteriormente interpretada como sinal de El Niño.
Na visão de Molion, a velocidade do processo diferenciaria esse episódio da evolução mais lenta normalmente associada às ondas oceânicas que participam da formação do fenômeno. Ele sustenta, portanto, que a presença dessa água aquecida não garante, por si só, que haverá resposta atmosférica suficiente para consolidar um El Niño forte.
Essa relação direta entre o terremoto e o aquecimento do Pacífico foi apresentada por Molion no programa e deve ser compreendida como sua interpretação. Os centros oficiais de previsão analisam o Enos principalmente por meio de temperatura superficial e subsuperficial do oceano, ventos, pressão atmosférica e modelos acoplados, sem tratar terremotos como mecanismo usual de formação do fenômeno.
Ciclo lunar também entra na análise do professor
Outro ponto de destaque da conversa foi a influência da Lua sobre as correntes oceânicas. Molion citou o ciclo nodal lunar, com duração aproximada de 18,6 anos, e afirmou ter encontrado associação entre a posição da órbita da Lua e a ocorrência de episódios históricos de El Niño forte.
Segundo o professor, eventos intensos, como os registrados em 2015/16 e 1997/98, teriam ocorrido em configurações nas quais o plano orbital lunar favorecia a permanência de águas quentes na região tropical do Pacífico. Na condição atual, ainda de acordo com ele, as correntes tenderiam a transportar parte desse calor para latitudes mais altas, reduzindo a possibilidade de formação de um evento de grande intensidade.
Com base nessa leitura, Molion avalia que não há condições para um “super El Niño” neste momento e projeta que uma configuração mais favorável a um fenômeno forte surgiria apenas em 2034/35. Mais uma vez, trata-se de uma tese defendida pelo entrevistado.
A influência gravitacional da Lua sobre as marés é um fenômeno físico conhecido, mas a previsão operacional do Enos pelos principais centros meteorológicos não se baseia no ciclo lunar como fator determinante para estabelecer a intensidade ou a data do próximo El Niño.
Conselho ao produtor: cautela antes de mudar o planejamento
Apesar das explicações técnicas, a mensagem prática do episódio foi direta: o produtor não deve ignorar o risco climático, mas também não deveria reorganizar toda a safra com base em manchetes ou projeções ainda instáveis. Uma previsão climática sazonal trabalha com probabilidades, não com garantias.
Além disso, os efeitos do El Niño não são uniformes no território brasileiro. Mesmo quando o fenômeno se confirma, o volume e a distribuição das chuvas variam conforme a região, a época do ano e a interação com outros sistemas atmosféricos. Nesse cenário, a tomada de decisão precisa combinar diferentes fontes de informação, atualização frequente dos prognósticos, histórico da propriedade, disponibilidade de água no solo, janela de plantio e capacidade financeira para absorver eventuais perdas.
O recado de Molion é que cautela não significa inércia. Significa evitar mudanças drásticas antes que os sinais do oceano e da atmosfera estejam mais claros.
Sorgo aparece como alternativa para reduzir risco
Ao tratar da possibilidade de alongamento da estação seca, o professor apontou o sorgo como uma cultura que merece ser testada em parte das áreas agrícolas. A planta tem maior tolerância ao déficit hídrico do que culturas mais exigentes, além de possuir sistema radicular profundo, característica que amplia sua capacidade de explorar água em diferentes camadas do solo.
Molion destacou ainda o potencial econômico da cultura para a fabricação de etanol e de DDG, coproduto utilizado na alimentação animal. Em regiões sujeitas a maior irregularidade de chuvas, o sorgo pode funcionar como ferramenta de diversificação e redução de risco, desde que sua adoção considere mercado comprador, logística, zoneamento, ciclo da cultivar e viabilidade agronômica de cada propriedade.
A recomendação, portanto, não é substituir culturas de forma generalizada, mas avaliar testes em áreas limitadas e comparar os resultados antes de ampliar o plantio.
Um sistema climático muito mais complexo
Na parte mais ampla da entrevista, Molion reforçou que o clima não pode ser explicado por uma única variável. Oceanos, correntes marinhas, atividade solar, erupções vulcânicas, movimentos geofísicos e interações atmosféricas participam de um sistema dinâmico e complexo.
Como os oceanos cobrem cerca de 71% da superfície terrestre e armazenam enorme quantidade de energia, o professor atribui a eles papel central na regulação do clima. É justamente essa complexidade que, segundo ele, exige prudência diante de previsões categóricas feitas meses antes do plantio.
Para quem produz, a discussão do episódio 126 do Agro em Debate deixa uma reflexão importante: tanto o alarmismo quanto a confiança excessiva em uma única previsão podem custar caro.
Em uma safra marcada por decisões de alto valor, o melhor caminho continua sendo acompanhar os dados, atualizar cenários e construir estratégias capazes de responder a mais de uma possibilidade climática. O episódio completo reúne a análise de Luiz Carlos Molion e a conversa conduzida por Leandro Marmo sobre clima, El Niño, safra 2026/27 e gestão de risco no campo.
Fonte: comprerural.com
Publicado em 14/09/2026










